Estou revisitando a minha história.
Tudo que sempre fui, como sempre agi, como sempre me senti. Como eu sempre soube que era diferente mas não tinha voz para dizer. Como eu preferia ficar sozinha e mesmo assim a solidão me incomodava. Como eu precisava de espaço e de atenção ao mesmo tempo, mas ninguém entendia. O tamanho da raiva, frustração e desespero que me seguiam onde quer que eu fosse... tudo isso passa pela minha cabeça agora. Eu nunca pertenci, e nem sei se vou. Nem sei se quero. Mas eu sempre soube que esse mundo não era meu.
Cada sorriso forçado, cada presença em eventos que me corroíam por dentro e eu não podia ir embora, tudo que eu fiz para parecer normal e mesmo assim falhei.
Eles sabiam que tinha algo de errado comigo.
Mas não era bom citar, não se eu não dava trabalho. Por que apontar um problema no seu filho que (na maioria das vezes) funciona? Por que se colocar nesse papel, por que colocar um rótulo numa criança que claramente já está sofrendo?
E eu entendo. Entendo a situação, entendo como mascarar pode ter deixado todos a minha volta confusos, e talvez seja culpa minha de ter tentado me encaixar desde sempre. Mas eu não conhecia nenhuma outra forma de sobreviver. Eu só aprendi a me encaixar, me apagar e ficar em silêncio até que eu fosse quase um móvel na sala.
Crescer foi difícil. A adolescência foi avassaladora, a necessidade de contato somada a necessidade de ficar sozinha me deixavam confusa e me fez tomar decisões que não foram muito inteligentes ou sequer pensadas. Minha autoimagem sempre foi completamente distorcida porque eu não entendia o que via no espelho e o que falavam de mim. Era errado ter um corpo? Era feio existir? E, a pior parte, é que isso me assombra até hoje, mesmo que eu tenha mudado e consequentemente a sociedade tenha mudado como me trata. Eu ainda sou aquela adolescente gorda com medo de não servir numa roupa ou ouvir algum comentário desagradável de alguém que ama.
E, agora, eu não sei. Eu simplesmente não sei. Quem eu fui e quem eu sou se fundem até eu não saber onde um termina e o outro começa. A raiva se torna apatia tão rápido quando o apertar de um gatilho. A confusão é como uma nuvem pairando sob meu cérebro, me impedindo de processar qualquer informação sobre mim mesma. Do que eu gosto? Quem eu sou? Como eu ajo quando ninguém está olhando? Quais sentimentos são Borderline, e quais são Autismo? O que eu faço agora? Eu mudo? Eu consigo mudar? Eu tenho medo de me encontrar e desapontar pessoas, tenho medo que esperem mais de mim do que eu posso oferecer. Queria ter confiança o suficiente pra trilhar meu caminho sem me preocupar com nada disso, mas creio que seja um processo. Tudo é um processo.
E eu sou imediatista. Quero tudo pra ontem. Quero tudo resolvido o quanto antes porque eu preciso da previsibilidade. Eu preciso ser assegurada de tudo. Mas, por enquanto... Vou me descobrir. Vou me conhecer de novo. Vou dar uma chance pra essa pessoa que passou por tanto e se sentiu tão deslocada a vida toda. Vou acolhê-la, escutá-la e protegê-la.
É tudo que eu posso fazer.
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