Eu era uma fada.
Tão pequena, não maior do que a flor onde decidi me deitar por alguns minutos. Eu admirava o céu, o sol, as nuvens, e a paz preenchia meu coração.
Eu voava lentamente por entre as plantas, respirando fundo como se quisesse guardar o aroma dentro de mim. O vento balançava meu vestido feito de folhas, e eu permanecia descalça por saber que tocar a terra significa honrá-la. Eu era apenas um com o universo, e a grandiosidade das coisas não me assustava mais. Eu finalmente entendia o sentido da vida porque a vivia o tempo todo, bebendo de pequenas gotas de orvalho, escolhendo os cogumelos certos para consumir e respeitando a terra como todos deveriam fazer.
Quando anoitecia, eu voltava para a minha pequena casinha no alto da minha árvore favorita, com musgo no telhado e rodeada de flores coloridas. Lá dentro, eu cozinhava, criava magia enquanto preparava o que comer. Depois disso, eu saía e me deitava no galho mais alto da mesma árvore, contando estrelas e admirando a lua. Eu era apenas um com o universo. As vezes, eu adormecia ali mesmo, sem medo nenhum de que algo poderia acontecer. Eu estava protegida e estava em paz, e sabia que algo maior olhava por mim.
Eu finalmente entendia o que a vida deveria ser.
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Continuação - Atualizado em 31/08/2026
A fada acordou, sonolenta, sentindo os raios de sol em seu
rosto. Era um dia agradável, perfeito para andar por entre as plantas ou colher
pequenas flores. Ela se espreguiçou, sorriu e se levantou da folha de onde
havia dormido. Olhou para os lados, e tudo parecia em paz: os campos, as
árvores, os pássaros que cantavam e todos os outros animais que a rodeavam.
Novamente, ela se sentia em paz.
Desceu graciosamente da folha, usando suas pequenas asas
enquanto voava para mais perto de um arbusto. Ela o desejou um bom dia antes de
tomar um bom gole da gota de orvalho que estava ali. Algumas pequenas gotas
rolaram pelo seu queixo, ela riu e as limpou com as costas da mão. Era
agradável sentir o frescor se espalhar pelo seu pequeno corpo enquanto seus pés
tocavam a grama baixa, se movendo em direção ao pequeno riacho que havia ali.
Ao chegar, se olhou no reflexo da água. Os cachos
desconectados, curtos e ruivos como fogo apontavam para todas as direções possíveis, mas
ela sorriu, os olhos verdes se enrugando enquanto ela tentava ajeitar seu
cabelo, mas não muito. Seu cabelo tinha volume e as ondas adicionavam a isso,
trazendo um ar selvagem porém sereno. Ela levou o rosto no riacho, sentindo a
refrescância da água corrente. Seus pequenos dedos adentravam o riacho e
brincavam com as pedras, até ela encontrar apedra perfeita para colocar naquele
espaço vago na estante de sua pequenina casa. Era uma pedra com tons de rosa,
lisa, num formato quase oval. Isso a lembrou de Afrodite, sua mãe em tantos
aspectos, e a conexão com o cristal foi instantânea.
Ela se levantou, colocando o cristal dentro de uma bolsa que
havia feito de um pedaço de couro que encontrara meses atrás. Ela seguiu seu
caminho de volta, tocando as plantas, cantarolando e conversando com cada uma
delas. Sua energia e vitalidade pareciam ter algum efeito nas plantas e flores,
pois todas pareciam se abrir, receber a energia e... sorrir. Mesmo sem boca ou
dentes. O sorriso delas era perceptível.
Ao chegar na árvore onde sua casa ficava, ela voou até a
porta, admirando novamente as pequenas flores, plantas e musgo que tinham ali.
A sua porta era adornada de entalhes na madeira, pequenas runas de proteção que
funcionavam muito bem. Ela rapidamente tirou o cristal róseo da bolsa e o
posicionou naquela estante específica, perto de um dos livros sobre magia de
fadas. Ela olhou, admirou, sorriu e agradeceu a Afrodite por ter permitido que
ela encontrasse o artefato. Sua casa parecia mais brilhante, mais feliz, mais
protegida. A fada se sentou no sofá improvisado por galhos e folhas e riu. Riu
alto, riu com vontade. Ser um ser mágico era definitivamente uma das coisas que
ela mais apreciava, e sua conexão com tudo que existia a fazia feliz. Ela era
um com o todo, e o todo era apenas um com ela.
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Continuação - Atualizado em 31/08/2026
A luz do entardecer entrava pelas suas janelas de carvalho,
tingindo tudo num tom muito simples e também mágico. Ela bocejou, desejando que
já fosse noite para que pudesse sair e explorar os caminhos já tão conhecidos.
Rapidamente se levantou e fez um ensopado de vegetais frescos, comeu sentada à
sua mesa e deixou tudo na pia já que não tinha tempo a perder.
O sol se punha no horizonte, tons de amarelo, laranja e uma
pitada de vermelho pintando o céu. Ela observou por algum tempo, como se
quisesse gravar a imagem na mente. Os animais se recolhiam para dormir quanto
mais escuto ficava, e as estrelas começaram a aparecer. A constelação de peixes
era visível no céu, e ela admirava como se nunca houvesse a visto antes. Talvez
esse fosse o segredo da vida: viver tudo como se fosse a primeira vez.
Ao andar, seus pés tocavam a grama como sempre, trazendo paz
e alívio. Quando a fada encontrou uma árvore de onde podia admirar as estrelas,
se sentou e recostou sobre ela. O olhar escaneava tudo, até que ela finalmente
viu a lua. Cheia, brilhante, imponente, como se o mundo fosse dela durante
aquelas horas em que ela estaria ali. A fada sorriu para a lua, mandando um
tchauzinho tímido. Ela sabia que a lua ouvia, a terra ouvia, o sol ouvia. Tudo
a ouvia. Então, ela começou a contar sobre seus dias na floresta. De quando um
esquilo brigou com ela por conta de uma noz, mas acabaram dividindo. Quando um
girassol deixou de se tornar ao sol e virou para ela, como se ela fosse o
próprio sol. Como ela gostava de dormir nas folhas mais altas das árvores para
poder apreciar a noite e a brisa suave que carregava. Tudo, em detalhes, e a
lua parecia ouvir atentamente.
Foi quando a lua respondeu. Uma voz feminina, calma e baixa
ao pé do ouvido da fada. Ela dizia: “Eu sei do que acontece, querida. Nós vemos
tudo. Nós vemos seu coração puro e sua gentileza com tudo que existe. A sua
bondade é cativante. Continue sendo uma boa fada, e continue sabendo que somos
um. Todos nós somos um. Você é a lua. Você é o sol. Você é as estrelas. Você é
o orvalho das plantas. Você é as flores. Você é a água que corre no rio. Você é
cada árvore, cada arbusto e cada ser dessa floresta. Você pertence aqui.”
Com um sorriso, a fada assentiu. Ela continuava a encarar a
lua, mas agora parecia mais pessoal do que antes. Tudo estar conectado era tão
óbvio para os seres mágicos, mas ainda assim, ouvir da própria lua... Isso
definitivamente contava de algo.
A pequena fada repassava as palavras da lua em sua mente
enquanto caía no sono, debaixo de uma proteção mágica e de uma esfera pacífica.
Ela dormiu sorrindo, agarrada num amontoado de folhas que estava ao seu
alcance. Nada mais poderia sequer estremecer a fé que ela tinha no universo.